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Nº 1255 ano 2017
Data:

Principal Emponderamento


Julho das Pretas: é mais que um dia de lutar

Movimento atuou com a intenção de dar visibilidade para a necessidade de mais políticas públicas e ações afirmativas em benefício da população negra.

Por: Redação/Lauane dos Santos
31/07/2017 9h:37min Atualizada em 31/07/2017 9h:37min

Em 25 de Julho, comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha em todo o mundo. Essa data é comemorativa, no entanto não é dia de fazer festa. É dia de refletir, debater e lutar pelos direitos das mulheres, especialmente as negras, que sofrem diariamente o racismo existente na sociedade. Em Palmas, um dia de reflexão virou um mês inteiro.

O grupo feminista da Marcha Mundial das Mulheres do Tocantins, Núcleo Lélia Gonzáles, organizou uma agenda com diversas atividades que discutiu e reivindicou pautas relacionadas ao feminismo negro, denominado como “Julho das Pretas”, com o objetivo de dar visibilidade à luta das mulheres negras, por serem elas, as que estão à margem da desigualdade social, racial e de gênero.

O “Julho das Pretas” foi caracterizado por uma série de eventos marcantes realizados em parceria com coletivos de mulheres, sociedade civil organizada e também pelos órgãos públicos estaduais e municipais. Umas das intenções também foi debater sobre a necessidade de mais políticas públicas e ações afirmativas em benefício da população negra, especialmente as mulheres.

Diálogo
No dia 20 de Julho, foi realizada uma palestra sobre a relação entre Psicologia e raça, no Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas do CRP-23, com o tema “O compromisso social da Psicologia com as questões raciais: Contribuições e desafios”. O evento atendeu as expectativas e foi aberto não somente para os estudantes do curso, mas para toda a população.

No dia 21, às 14 horas, as mulheres negras do Núcleo também estiveram em reunião com o reitor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Luis Eduardo Bovolato, com a finalidade de solicitar a criação de um Observatório Estadual de Pesquisa e um Núcleo de Pesquisa e Estudos com recorte de gênero, raça e classe, se tornando um Núcleo Interseccional. 

Já no domingo, 23, as mulheres foram convidadas a participar de uma roda de conversa, no Ginásio Ayrton Senna, sobre feminismo negro. De acordo com as o Núcleo, no encontro foram debatidas as condições inferiores impostas para as mulheres negras na sociedade, bem como a realidade no mercado de trabalho, a existência de violência obstétrica e a incidência de feminicídios de mulheres negras em razão de racismo e sexismo. 

Efetividade
Dentre os eventos que ocorreram durante todo o mês, houve uma reunião, dia 25 de julho, na qual as mulheres do Núcleo Lélia Gonzales, da Macha Mundial das Mulheres, levaram uma carta de reivindicações das mulheres negras de Palmas, pedindo mais atenção para esse segmento, ao Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial.

Na ocasião a militante do Núcleo Lélia Gonzalez da Marcha Mundial das Mulheres, Janaína Costa, falou sobre as principais demandas percebidas pelo Núcleo para Palmas. “Entendemos o conselho como um importante espaço para buscarmos políticas públicas para todos os segmentos da população negra. E dentro deste segmento, entendemos que as mulheres negras têm mais peso porque são menos remuneradas. Além disso, há a questão da violência que mostra que a mulher negra tem sido atingida mais intensamente que a branca, conforme apontou o último Mapa da Violência”, explicou.

Como resposta às necessidades da população feminina negra palmense, bem como para que as políticas públicas de igualdade racial se tornem efetivas e sejam garantidas em todas as gestões, o Conselho criou duas comissões para dar encaminhamento à elaboração de um capítulo na Lei Orgânica Municipal para inclusão de políticas públicas de igualdade racial. 

De acordo com o presidente do Conselho Municipal e Superintendente de Promoção da Igualdade Racial de Palmas, Nélio Lopes, essa medida tornará obrigatório o trabalho de criação e efetivação de políticas públicas e ações afirmativas para o Estado. “Eu acredito que temos que construir um espaço sólido, garantido e irrevogável e posteriormente a ocupação é fundamental”, disse.

Uma ação de mobilização da população local que irá debater as políticas públicas é a realização da 1ª Conferência Municipal de Igualdade Racial, prevista para os dias 28 e 29 de setembro, em Palmas. O evento, organizado pelo Conselho Municipal, também é proposto como uma ação afirmativa, uma vez que a população negra se reunirá de modo a trabalhar o emponderamento das negras e negros.

Professora destaca machismo e racismo dentro do meio acadêmico
 

O âmbito universitário também não foge do contexto social da sociedade como um todo, podendo ser racista e conservadora, não priorizando o debate de raça e gênero.

Solange Nascimento é negra e professora de História e Cultura Afrodescendente no curso de Relações Internacionais, na UFT de Porto Nacional. Para ela, a universidade está inserida em um contexto social machista e racista uma vez que ela também faz parte da sociedade. 

“A sociedade é machista, racista e intolerante, portanto a universidade também acaba por ser, as mulheres negras dentro da academia acabam sendo colocadas nesse contexto, não sendo respeitadas e sendo discriminadas. Muitos casos de alunas negras e quilombolas que não se sentem à vontade para assim se reafirmar pois a universidade abre muito pouco esse espaço, bem como a sociedade”, explicou.

A professora Solange também atentou para a necessidade de que os coletivos de mulheres, professoras e alunas cobrem como prioridade as políticas de ações afirmativas para as mulheres negras e pelo respeito ao gênero e a raça no plano da universidade, uma vez que essa pauta é vista como secundária dentro da academia.

Alguns eventos já têm sido realizados e cada vez mais propostos dentro do âmbito acadêmico para que o debate de raça e gênero seja mais abrangente. São realizadas palestras e rodas de conversas geralmente propostas por grupos de extensionistas sobre igualdade racial. Também há mais professores propondo mais projetos de pesquisa e extensão com essa temática, alunos escrevendo trabalhos sob essa perspectiva, quando acertadamente instigados pelos seus orientadores, fazendo com que a universidade seja um espaço amplo de debate, desconstrução e, principalmente, combate ao racismo.

 

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